"Aceleração Escolar e o papel dos pais na educação das crianças". Este foi o tema dos workshops da XII Jornadas Técnico-Científicas da Fesa, realizados simultaneamente nas províncias da Lunda Norte, Cabinda, Huíla, Cunene e Luanda e dirigidos a professores, administradores de escolas e autoridades educacionais.
O "Programa de Alfabetização e Aceleração Escolar", lançado pelo Ministério da Educação de Angola,, prioriza a inclusão, no sistema de ensino e aprendizagem, de pessoas a partir de 12 anos.
O programa tem objetivos ambiciosos pois visa acelerar a aprendizagem dos alfabetizandos em tempo pedagógico mais curto, assegurar a universalização da educação (acessível e gratuita) e inserir adolescentes, jovens e adultos no sistema de ensino formal. Visa também criar espaços de aprendizagem que favoreçam a elevação da auto-estima dos alunos para estimular a continuidade dos estudos e desenvolver atividades educativas que possibilitem a integração dos formandos no mercado de trabalho.
A estratégia do governo angolano leva em conta a alfabetização e recuperação do atraso escolar de adolescentes, jovens e adultos com dificuldade de aprendizagem e outros que, por diversas razões, se encontram fora do sistema normal de ensino. O programa é desenvolvido com o apoio técnico do Brasil e de Cuba.
LUANDA
Na capital angolana, o workshop foi realizado no anfiteatro do Instituto Médio de Educação de Luanda (IMEL) e contou com expressiva assistência. Os educadores brasileiros que participaram dos debates - Marilene Rosa Nogueira da Silva, coordenadora do Laboratório de Estudo sobre as Diferenças e Desigualdades Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), e a professora Edna Maria dos Santos, da mesma universidade -, explicaram os métodos de aplicação da estratégia para a aceleração escolar.
A aceleração escolar aplica-se geralmente aos adultos que, em três meses, conseguem ter noções básicas para aprender a ler e a escrever. "É um processo novo dentro do setor da educação em Angola, mas o povo brasileiro domina muito bem este método, por isso estamos a ter esta troca de experiência", explica Laudimira de Sousa, porta-voz do encontro.
Quanto ao papel dos pais no sucesso escolar, Angola tem tido grandes dificuldades para fazer com que eles participem da gestão desenvolvimento escolar dos filhos. "Muitos pais e responsáveis abdicam do seu papel e entregam toda a responsabilidade à escola", afirma Laudimira de Sousa. Em geral, os pais costumam aparecer na escola apenas no princípio do ano, para fazer a matrícula, e no final para saber as razões do filho não ter tido aproveitamento escolar.
Os encontros promovidos pela Fesa serviram para alertar os pais e responsáveis para a necessidade de estarem presentes e contribuírem para o desenvolvimento da vida escolar dos seus filhos.
CABINDA
O workshop debateu em Cabinda, a província mais ao norte do país, temas relacionados com as estratégias de aceleração escolar, o papel dos pais na promoção do sucesso escolar e a experiência brasileira.
Na cerimônia de abertura do evento, realizado no Cine Chiloango, o vice-governador para a Área Técnica, Manuel Antônio Gime, manifestou a satisfação pela maneira "lúcida" dos palestrantes angolanos e brasileiros transmitirem conhecimentos, o que fez com que os objetivos definidos pela Fesa fossem alcançados.
"Mostramos como se chegou, em São Paulo, a este modelo de ensino-aprendizagem, destacando a importância de sabermos que os alunos precisavam de maior tempo para a construção de sua aprendizagem-, informa a professora paulista Nilde Fonseca. Segundo ela, esse tempo foi dividido em ciclos, com a preocupação de se conhecer o que os alunos já sabiam e como se deveria intervir para aprimorar seu desenvolvimento",.
DUNDO (LUNDA NORTE)
A aceleração escolar e o papel da família na escolarização da criança foram temas do workshop sobre "O papel da educação em Angola", promovido na cidade do Dundo, na Lunda Norte, numa parceria da Fesa e o do governo provincial.
Na sessão de abertura, o governador da Lunda Norte, Ernesto Muangala, disse que a realização do evento iria contribuir para a melhoria do sistema de ensino e para uma maior aplicação dos professores no processo de reforma em curso na província.
Durante um dia de formação, os professores do município do Chitato foram orientados pela especialista brasileira Nilde Fonseca e pela diretora nacional para o Ensino Geral do Ministério da Educação de Angola, Luísa Grilo.
Nilde Fonseca relatou uma experiência vivida no bairro do Campo Limpo, na Zona Sul de São Paulo, onde a educação se divide em ciclos e as decisões são tomadas em conjunto com o conselho de escola, uma instância deliberativa composta por pais, alunos, docentes e equipe de apoio e administrativa. "Nesta instância discutimos o projeto pedagógico, a aplicação das verbas públicas, o número de alunos por sala, o funcionamento da secretária, as melhorias para a comunidade, enfim tudo que é pertinente a educação."
LUBANGO
O diretor em exercício da Educação e Cultura da Huíla, Américo Chicoty, considera o acompanhamento por parte dos pais e encarregados de educação fundamental para o sucesso escolar dos alunos. Para ele, o interesse dos pais e responsáveis deve passar pelo acompanhamento constante do desempenho dos alunos ao longo de cada ano letivo, incentivando-os a se aplicarem cada vez mais nos estudos.
"Quero chamar a atenção dos pais e responsáveis a não terem receio de se dirigirem à escola para conhecer o comportamento dos seus educandos. Só assim eles poderão tomar decisões que visem o seu melhor aproveitamento escolar dos mesmos", aconselhou Cichopty durante o workshop da Fesa realizado no auditório da Rádio Huíla, na cidade do Lubango.
Chicoty ressaltou que o governo está a fazer a sua parte e, para tal, necessita da ajuda dos pais e responsáveis, que jogam um papel indispensável no desempenho da criança dentro da sala de aula.
Maria Imaculada, diretora de Intercâmbio Internacional do Ministério da Educação, considera que o "Programa de Aceleração Escolar" é um instrumento fundamental para o combate ao analfabetismo e que o mesmo proporciona um ambiente de aprendizagem que valoriza a igualdade entre homens e mulheres, com atenção especial para jovens, como forma de prevenir casamento e gravidez precoce.
Participaram também do encontro a professora de História da Uerj, Marilene Rosa Nogueira da Silva, a professora Maria Curato e os acadêmicos Francisco Barros e Rosa Lima, como moderadores, além de membros do governo, professores, estudantes universitários e representantes de partidos políticos e entidades religiosas.
M'Pinda Simão: apóia programa de educação especial
O vice-ministro angolano da Educação para a Reforma Educativa, M'Pinda Simão, estima que o "Programa de Aceleração Escolar" possa atingir anualmente, em todo o país, mais de 500 mil alunos. O objetivo dessa iniciativa é reduzir o índice de analfabetismo ao passo em que introduz novas tecnologias no processo de alfabetização e nos métodos de aprendizagem.
O novo método de ensino, que inclui tele-aulas, tem permitido que os estudantes aprendam a ler e a escrever num espaço de três meses e desenvolvam as suas habilidades.
Para possibilitar a continuidade dos estudos dos alfabetizandos, o Ministério da Educação irá criar um programa de pós-alfabetização, atendendo às especificidades de cada indivíduo. Para tanto, está em andamento um projeto de formação de professores em Cuba com vistas ao aperfeiçoamento da estratégia de aceleração dos materiais pedagógicos.
Como resultado dos investimentos feitos no setor, a taxa de alfabetização em Angola, nos últimos quatro anos, atingiu 67%, havendo já um maior equilíbrio entre os gêneros no acesso ao ensino. Tal crescimento, segundo o vice-ministro, aumenta as possibilidades de o país atingir até 2015 a erradicação do analfabetismo, uma das metas preconizadas pelo governo angolano para a educação.
Outro destaque nesse sector é a expansão do ensino especial para alunos deficientes físicos, que permitiu a inserção de 16 mil estudantes com necessidades educativas diferenciadas, sobretudo no interior do país. "Está a ser desenvolvido agora um programa para a introdução das tecnologias de informação e comunicação nas escolas especiais para surdos e cegos, além da intensificação da formação de professores para poderem acompanhar os estudantes e atender o sistema de integração escolar", informa Pinda Simão.
Neste contexto, as províncias de Bié e Kwanza Norte vão contar, no próximo ano, com escolas especiais, construídas com o apoio da empresa petrolífera Esso. Atualmente, a rede escolar deste sistema é composta por 12 unidades, das quais duas em Luanda e as outras nas províncias de Benguela, Huíla, Bengo, Moxico, Lunda Sul, Namibe, Malanje, Kwanza Sul, Kuando Kubango e Cunene.
Dados estatísticos apontam que em 2006 a educação especial atendeu 14 mil estudantes em todo o país. Desde a sua implementação, foram atendidos cerca de 60 mil alunos nas áreas para surdos, cegos e deficientes mentais.